Olá, queridas alunas e queridos alunos da Escrever Online – e também pessoas que curtem o nosso trabalho!

Hoje vamos falar sobre a prova de redação da Fuvest 2019. Estamos um pouquinho atrasados para falar sobre tal prova de redação, mas devido à importância do tema demandado por ela, não pudemos ficar de fora da discussão, não é mesmo?

A proposta de redação deste ano foi: De que maneira o passado contribui para a compreensão do presente? Uma pergunta de extrema relevância na atualidade, quando muitos buscam apagar o passado, dizendo que o importante é pensar no futuro ou viver o presente. Mas como podemos compreender o que acontece agora, no Brasil e no resto do mundo, se não considerarmos as decisões e os acontecimentos do passado? Pedir para que os candidatos reflitam sobre esta questão nos mostra uma necessidade urgente da sociedade em buscar olhar para o passado para compreender o presente de forma crítica e consciente.

Pensar sobre o passado e discutir a sua importância para a sociedade também já esteve presente em alguns de nossos temas. Quem é nosso aluno ou já nos acompanha a algum tempo, já deve ter visto a proposta sobre o incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro, que pedia para que os nossos alunos debatessem sobre o problema para se preservar a história em nosso país  (publicado em 10 de setembro de 2018 ) ou ainda sobre a proposta falando acerca da importância do ensino de história para pensar nos acontecimentos presentes (publicado em 06 de agosto de 2018).

Voltando ao tema da Fuvest, devemos ressaltar a importância que este vestibular deu para a figura do historiador, representado no poema de Drummond. Para os candidatos que falaram sobre o papel fundamental dos historiadores e de suas pesquisas, para mostrar as várias perspectivas históricas dos fatos e como estes interferem nas decisões e acontecimentos atuais, estão de parabéns! Isso mostra que o candidato teve maturidade de entender que, para se falar sobre o passado de uma sociedade, deve-se pautar em muitas pesquisas e análises de materiais, de fatos e de acontecimentos. Ou seja, não devemos apenas nos sustentar em afirmações como a seguinte: “Ah, mas não aconteceu comigo e nem com o meu avô, então não aconteceu!”.

Outro ponto relevante da prova foi chamar atenção, de forma delicada, para um assunto relevante sobre a história do Brasil: a questão da escravidão, representada pela estátua de um garoto negro, que derrama sobre o seu corpo uma tinta branca. Há diversas possíveis interpretações sobre os sentidos apresentados por esta estátua: (i) o fato de o Brasil ter sido um país escravocrata por mais de três séculos e muitas das mazelas sociais serem resquício desse passado, (ii) o esforço, no passado, do governo em branquear a população com o incentivo das migrações italianas e alemãs para o Brasil, por exemplo, e, por fim, (iii) os inúmeros privilégios que existem em nossa sociedade, apenas pelo fato de o sujeito ser branco. Todas essas questões estão relacionadas com o passado escravocrata do Brasil, o qual não pode ser apagado. Aliás, tal passado deve ser sempre colocado no cerne das discussões sociais, políticas e econômicas do Brasil.

Outro ponto de extrema relevância nessa proposta foi levantado pelo texto sobre a importância de se preservar a memória do incêndio do Museu Nacional. Sua importância reside, justamente, no fato de mostrar à população o descaso dos órgãos públicos para com a preservação da memória. Aliás, preservar a memória de acontecimentos tristes ou catastróficos realizados por ações do homem ou por descaso é fundamental para que não ocorram mais. Para quem já teve oportunidade de viajar para alguns países da Europa, principalmente Alemanha, é possível visitar museus e monumentos que representam os campos de concentração e as atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus, os homossexuais e os deficientes físicos, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial. Essa preservação da memória é importante para sempre lembrar à sociedade as atrocidades já cometidas pelo homem, para que não ocorram mais. Devíamos ter monumentos também para lembrar à população brasileira sobre as atrocidades cometidas contra estudantes, professores, artistas e jornalistas na época da Ditadura Militar de 64, contra a população indígena brasileira, bem como museus sobre as atrocidades cometidas na época da escravidão. Talvez isso ajudaria grande parte da população brasileira a entender algumas problemáticas do presente.

Bom, termino por aqui meu breve comentário sobre a prova da Fuvest. Dá vontade de continuar escrevendo sobre essa proposta, devido à sua importante para a nossa sociedade atual, ainda mais quando muitos menosprezam a história, mas terminemos por aqui!

Deixo apenas um recado final: vamos ler mais pesquisas sérias acerca da história do Brasil e do resto do mundo! Vamos ler trabalhos de pesquisadores de verdade para podermos olhar para o presente de forma crítica. E quando falo ler, é ler livros, artigos de revistas científicas, e não o post de WhatsApp que sua tia querida te enviou!

Bem, espero que aqueles que fizeram a segunda fase da Fuvest tenham ido bem e tenham aproveitado para desenvolver esse tema com maturidade e criticidade!

 

Abraço,
Profa. Fernanda D’Olivo