Texto 1

Sim, acabo de ver Arkangel, o segundo episódio da quarta temporada da série Black Mirror, tão logo a criação de dois nativos digitais me permitiu. É vergonhosamente tarde para avisar sobre spoilers à frente, mas aí vão eles. No capítulo, uma mãe solteira decide, depois de uma distração/susto/cadê-a-menina, implantar um chip na filha de três anos para mantê-la geolocalizada e, graças a isso, pode ver por um iPad tudo o que a menina enxerga. O sistema Arkangel permite, além disso, colocar um controle parental no cérebro infantil. A menina recebe pixelado tudo aquilo que a estressa: do pornô na Internet ao cachorro do vizinho que late quando ela passa. Em pouco tempo, surpresa: a garota começa a se comportar de forma estranha, para experimentar o que lhe é censurado. Por recomendação de um psicólogo, a mãe desliga o iPad. Até um dia em que a agora adolescente não chega em casa. A mãe, preocupada, desempoeira o tablete e se depara com sua menina em plena transa com o namorado, e depois cheirando cocaína. No final, a garota taca o iPad espião na cabeça da mãe e escapa. A moral do capítulo, dirigido por Jodie Foster, é uma pouquinho óbvia: se você cria os seus filhos com rédea muito curta, no final os perde. E isso nem sequer é necessariamente verdade – eu tive uma mãe superprotetora e não a odiei mais do que o normal nem fui especialmente rebelde, embora, isso sim, tenha virado a rainha do subterfúgio adolescente.

Aprendi que o medo é livre, como o desejo. O que lhe excita, excita. E o que dá calafrios também. Ouvi gente muito sensata defender sem pestanejar que é normalíssimo colocar uma câmera oculta para fiscalizar uma babá, “por tranquilidade”, e desejar que inventem um geolocalizador subcutâneo para seus filhos. Ou seja, que o vendam na Amazon por 99,99, porque existir ele já existe. A tecnologia que aparece em Arkangel não é ficção científica. Já colocamos filtros no que nossos filhos assistem, já os temos geolocalizados no celular, já há câmeras nas creches, já espionamos suas redes sociais com perfis falsos… Um dos rastreadores infantis mais top de 2018, segundo os sites de tecnologia, inclui uma funcionalidade para escutar o que seu filho está ouvindo. O nome da geringonça é muito forte: Angelsense. Soa familiar? A mãe do capítulo de Black Mirror não é uma exceção, não é uma louca paranoica, é uma qualquer do seu grupo de WhatsApp dos pais. O inquietante do episódio não é tanto a pergunta “você faria isso?”, e sim “você já está fazendo?”. (Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/30/opinion/1517319479_681802.html. Acesso em 28 out 2019)

 

Texto 2

Celulares e crianças: recomendações

Independentemente da sua escolha sobre aderir ou não às ferramentas de controle parental, veja abaixo outros conselhos que vão ao encontro deste objetivo:

  • Navegar juntos: Compartilhe momentos online com seu filho e converse com ele sobre o uso da tecnologia.
  • Filtros de conteúdo: Tenha em conta que eles são úteis, mas não bloqueiam todo o conteúdo perigoso.
  • Tempo equilibrado: Controle o tempo que se passa na internet e evite a dependência nas telas.
  • Cuidado com a privacidade: Mantenha uma relação de confiança com seus filhos.

Fonte: Internet Segura For Kids (Centro de Seguridad en Internet para menores de edad en España).

 

Texto 3

A mestre em psicologia clínica Laís Fontenelle orienta aos pais acompanhar os acessos virtuais dos filhos da mesma forma como é feito no mundo real. “O mesmo cuidado que tem de ter na internet é o cuidado que tem de ter em um espaço público. Os pais têm de monitorar da mesma forma que monitora a casa do amigo que o filho vai, a praça que vai frequentar, a festa, porque é como se fosse um espaço público, só que virtual”, explica.

No caso de crianças não alfabetizadas, o acesso à internet precisa sempre ser feito com a supervisão de um adulto, diz a psicóloga. “A mediação é imprescindível principalmente para crianças que não estão alfabetizadas. Elas vão com o dedinho no touchscreen [tela do celular ou tablet] e podem cair em um conteúdo que não é adequado para elas, e não têm a maturidade para lidar com o conteúdo que está ali”, adverte.

A psicóloga também “puxa a orelha” dos pais, alertando para a responsabilidade do exemplo dado às crianças. “Não adianta a gente fazer um overposting dos nossos filhos nas redes sociais, expondo tudo que acontece na vida deles: ‘ganhou um peniquinho, comeu a primeira papinha’ e dizer para eles não fazerem isso. Se a gente não sabe lidar com esses limites claros sobre o que pode ser publicizado sobre a intimidade das nossas vidas, eles nunca vão saber”, diz Laís. (Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-07/pais-devem-acompanhar-o-acesso-de-criancas-internet-alertam-especialistas.Acesso em 28 out 2019)

Com base nos textos acima e no seu conhecimento de mundo, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o seguinte tema:

Internet e infância: controlar ou não o uso dessa tecnologia pelas crianças